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]]>Já escrevi sobre isso como a gente tem essa mania besta de dar valor a quem falta, a quem não se lembra, a quem não se importa. E essa é daquelas famosas escolhas burras. Por exemplo, essa semana fui em dois médicos dos quais gosto e admiro imensamente e ambos celebraram meu feito de correr a Meia Maratona do Rio e ainda baixar meu recorde pessoal em 10 min. Foi bacana o reconhecimento deles? Demais! Mas ainda tem no meu coração aquele lugarzinho que se ressente porque quem eu contava não foi capaz de desejar boa sorte, vibrar comigo, ficar feliz por mim…mas um monte de gente bacana ficou, mas faltou…
E quando a falta se agiganta cometemos um erro ainda mais grave e começamos a fazer exatamente o que eu fiz essa semana: damos poder de destruição a essas pessoas. Elas nos destroem. Destroem tudo o que temos de bom e nos achamos um nada que ao longo de 15 anos não conseguimos dar um só bom motivo para criar laços verdadeiros.
Mas esse é um processo que vem vindo de algumas semanas. Eu achei que tudo bem mudar um pouco para que algumas dessas pessoas gostassem de mim, afinal gosto tanto delas. Eu achei que tudo bem “fazer um esforço” para que elas se importassem comigo e me considerassem amiga afinal, as considero tanto. Eu achei que tudo bem ter que ir contra os meus princípios e me forçar a gostar de quem não gosto e é personagem vital de alguns dos meus piores momentos, afinal, alguém que gosto tanto achava isso tão importante…inclusive muito mais importante do que a nossa amizade.
E dessa obrigação e foraçação de barra para tantas mudanças por quem não se importa acabei eu me abandonando e detonando algumas crises, a maior delas de inapropriação, me senti a pessoa mais errada no lugar mais errado e que só faz tudo errado. Drama? É provável que alguém leia esse texto e ache que sim. Mas também é provável que tantos outros que já viveram situações semelhantes podem se reconhecer e não se acharem extraterrestres porque o sentir e se permitir viver e expressar tudo isso não é coisa de gente dramática, mas coisa de gente valente que não se contenta com o raso e com o menos da vida e que em algum lugar sagrado sabe que merece e deseja mais.
E como escrever é terapia, as crises viraram bacanice de sexta e amanhã tem treino de corrida e café coletivo e gente bacana que não quer me mudar e que gosta de mim do jeito meio torto, mas de verdade que sou. E corrida e gente bacana reenergizam a gente e talvez as crises venham não pra gente se enxergar e se mudar, mas pra enxergarmos com novos olhos o outro e a vida e fazer novas e melhores escolhas. Afinal, é quase primavera e jamais vimos um girassol sonhando em ser rosa ou ipê. Que possamos ser quem somos, que possamos ser amados do jeito que somos e caminhemos ao lado de pessoas que nos olhem e digam: “Não precisa mudar, vou me adaptar ao seu jeito, seus costumes, seus defeitos, seus ciúmes suas caras, pra quê mudá-las…”
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]]>É provável que essa seja uma frase que eu não falo tanto, mas eu sinto muito e achei que seria o melhor título para a bacanice celebrativa dos meus 15 anos na terra da Senhora Mãe da Dores.
Eu sempre brinco que não tinha como eu me mudar pra essa cidade que tem essa padroeira e não sofrer e não crescer pela dor. Mas afora a brincadeira, a Valéria de hoje, quinze anos após minha chegada em Guaxupé, é uma Valéria menos Valerinha e mais Valéria Cecília, mais valente, mais dona de si, mais doída, mas também mais afetuosa e que aprendeu que não deve abrir mão do seu sorriso largo por nada e nem ninguém nesse mundo. A Valéria Cecília embora não traga no nome Maria, foi fortalecida pela fé e pelo exemplo e inspiração de muitas Marias, a começar por Nossa Senhora das Dores que também me presenteou com muito amor aqui. Aqui ganhei irmãos, irmãs, amigos e amigas que ampliaram meu conceito de família, familhagem, irmandade…e tudo por escolha do coração.
Dizem que de tempos em tempos a vida nos desafia pra se certificar se queremos mesmo determinada coisa. E deve ser por isso que de tempos em tempos a vida que construí aqui é colocada à prova. Confesso que recentemente titubiei e minha primeira vontade era juntar minhas coisas e ir embora pra nunca mais voltar, mas a tristeza é má conselheira e é provável que eu jamais tenha ficado tão triste e decepcionada do que dessa última vez. É diferente quando decepção vem de alguém que a gente imaginava que nunca ia ser capaz de nos virar as costas, ainda mais sendo um momento tão difícil quando precisávamos exatamente do oposto. É diferente quando a decepção vem de alguém que você considera meio que sua extensão, alguém que você tem uma relação de simbiose há tanto tempo que nem consegue imaginar a vida sem, mas infelizmente, a pessoa consegue imaginar e viver perfeitamente bem sem a sua amizade e essa dor é daquelas gigantes, quase impossíveis de superar. Mas ainda bem que existe o quase e quem nos acolhe, nos acarinha e faz tudo que a gente esperava de quem escolheu nos negar sua amizade.
Mas até esse momento eu compreendi como mais uma lição, dura, mas também amorosa dessa terra que me abraçou, me acolheu e me fez sentir em casa e dia após dia me faz crescer, me faz ser um ser humano melhor, uma profissional melhor e uma amiga melhor que sabe exatamente o que dói em si e faz o seu máximo pra não provocar a mesma dor em quem lhe é tão caro.
A vida que eu tenho aqui é a vida que eu escolhi pra mim. É a vida em que eu madrugo mesmo com frio pra correr e fico orgulhosa de mim. É a vida onde eu trabalho na minha agência e sou exatamente o que eu queria ser quando crescesse. É a vida que me permite em pouco mais de uma hora estar em Poços pra matar saudade ou reabastecer de energia quando as coisas por aqui pesam mais do que eu acho que posso aguentar. É a vida que eu construí, ano após ano e da qual me orgulho muito, apesar de todos os pesares (que não foram poucos).
A Valéria de hoje, me dá muito orgulho sim, coisa rara da carrasca conseguir sentir de si. A Valéria de hoje, tão acostumada a sofrer porque sempre só ela perdia, se reconhece também como uma grande perda e bota grande nisso. A Valéria de hoje tem bem menos ilusões e sabe que quase nada é feito sem querer, que as escolhas refletem exatamente o que cada um queria mesmo escolher, dizer, agir. Mas a Valéria de hoje se nega a desacreditar da beleza e da sacralidade da amizade de verdade, dos afetos genuínos, da beleza das singelezas da vida e se nega a não dar valor ao que pra ela merece ter todo valor. A Valéria de hoje sabe quem é, sabe quem quer ter na vida e sabe muito bem o que não merece e segue adiante, mesmo doendo, se nega a deixar de acreditar em dias melhores na terra da Senhora Mãe das Dores até quando essa terra lhe quiser.
Sim, Guaxupé me mudou, pra muito melhor. E há 15 anos meu coração sulfuroso é também guaxupeano. Gratidão Guaxupé! Aqui eu sou feliz e tenho fé!
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]]>Todo dia tenho por hábito começar revendo os momentos do mesmo dia nos anos anteriores e a coisa que mais me comove são as permanências. Acho o máximo quando ano após ano reconheço os mesmos rostos me acompanhando nessa jornada.
Vez ou outra aparece uma lembrança que aperta o peito, mas ainda assim é bom, faz memória de alguém querido que decidiu partir cedo demais.
Hoje, ironicamente, não olhei as lembranças e só fui ver agorinha com a notificação chegando.
Li carinhosamente alguns textos que escrevi e um filme me passou pela cabeça e fiquei pensando na dinâmica da vida, em tanta coisa que a gente vive, em quanta vida a gente partilha e do nada tudo vira nada…
Mas não vira nada, pra mim vira lembrança das boas.
Nos últimos anos, eu que gosto das permanências, vejo as lembranças do face e lamento as impermanências, lamento quem escolheu não ficar, não mais partilhar a vida, não mais aparecer nas próximas lembranças…tem dia que acho triste que só. Hoje, alguns meses que tinham datas especiais agora são só meses mesmo. Fevereiro virou só fevereiro e agora o começo de junho virou só começo de junho mesmo.
Mas me recuso a achar que virou nada. Pra mim ainda é tudo, tudo que me fez chegar até aqui sendo quem sou. Me recuso a olhar pras lembranças de hoje e achar que foram palavras e sentimentos desperdiçados, pra mim não foram e é isso que fica. E vai ficar sempre um sorriso de canto de boca toda santa vez que essas doces lembranças amanhecerem minhas memórias de tempos que não voltam mais, mas que foram vividos lindamente, com todo o meu coração.
E todo ano vou olhar para cada texto, cada lembrança , vou sorrir de canto de boca, o aperto no coração vai quase sumir e eu vou dizer orgulhosa: viver valeu!
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]]>Desde que cheguei aqui em Poços, não teve um só dia que não choveu. No começo foram chuvas passageiras, depois pancadas de chuva e agora uma chuva sem fim.
Ontem a noite comentei com a minha mãe: “se não parar a chuva, vou ter que tomar antidepressivo.”
E hoje, nem a chegada da sexta-feira que sempre me anima trouxe alívio.
E fiquei pensando que toda essa tristeza devia virar bacanice…
Também fiquei pensando de como a natureza e seus ciclos nos ensinam, nos inspiram…
Sempre me rendo ao espetáculo dos ipês que se desapegam de tudo e simplesmente confiam que vão florir, ainda que por poucos dias, mas nesses dias reinarão absolutos em meio a paisagem quase sempre seca e sem vida que os circundam.
Sempre penso na mágica da primavera que chega colorindo tudo depois de tanto frio, uma verdadeira ode ao renascimento, ao triunfo do novo, um exemplo de como a vida tem seus ciclos e cabe a nós vivermos cada um deles…
Na teoria sei de tudo isso, mas minha alma solar sofre demais com o ciclo das chuvas. É um baque físico e emocional. Cada dia a mais de chuva é um dia a menos de energia e sempre fico tentando resistir, mas acho que só hoje compreendi que com a vida resistência é nossa escolha mais equivocada.
Talvez a chuva desse período venha nos ajudar a faxinar a alma e o coração. Venha trazendo, como diz na canção, alívio imediato (ok, não tão imediato assim). Talvez seja hora de abrirmos mão do que já foi, aceitarmos o que não deu certo, sermos gratos pelo o que deu e seguir em frente de alma limpa lavada por tanta chuva.
Gosto de uma frase de um dos meus seriados prediletos da vida, Ally McBeal que diz algo semelhante a isso: “Olhar para trás e reprisar o seu ano. Se não lhe trouxer lágrimas, de alegria ou tristeza, considere seu ano perdido.”
Talvez tanta chuva seja o convite para reprisarmos nosso ano e chorarmos por tudo, pelas alegria, pelas tristezas, por quem escolheu ir e por quem escolheu ficar. Talvez seja o momento oportuno de desaguarmos, esvaziarmos, deixarmos fluir para então abrirmos, de fato, espaço para o novo e celebrarmos o eterno.
E enquanto desaguamos, que nos preparemos para receber o sol quando voltar! E que ele reine absoluto em 2023!
Que em 2023 a gente desague com a chuva, brilhe como o sol e nos desapeguemos de tudo na certeza de que novas flores e cores irão brotar. Que confiemos no fluxo abundante e cíclico da natureza e da vida!
E mesmo triste e cinza e molhado, é sexta-feira amor!
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]]>The post Vai escolher a alegria! appeared first on .:Bacanices.:.
]]>Durante muito tempo tive muita dificuldade em aceitar essa frase, até que um dia ela passou a fazer tanto sentido, acho que tem a ver também um pouco com a nossa pouca capacidade de assumir a responsabilidade pela nossa vida, afinal, vamos combinar que é tão melhor ter sempre alguém a quem culpar. Tantas vezes sobra pra Deus e o mundo, menos pra nós.
Mas qual o motivo de ter ressuscitado essa frase hoje, nesse particular momento? É que acabei de ser arrebatada por uma frase que compunha a manchete de uma matéria em um portal de notícias e se referia a uma personagem da novela das 18h que sofreu a novela inteira. A frase dizia assim: “Ela vai escolher a alegria!”
Vocês sabem que as palavras me tocam de modo especial, me movem, me comovem, me inspiram… Essa frase juntou um pouco de tudo isso, foi se eu tivesse acabado de descobrir que existe essa opção: Escolher ser feliz!
Sim! É óbvio que ser feliz é uma escolha e mais do que isso, é uma escolha possível!
Mas também é óbvio que em tantos momentos isso não parece tão possível assim. Durante muito tempo não me pareceu uma escolha possível, ao menos pra mim que estava tomada pela tristeza e pela decepção mais devastadora da vida até aquele momento.
Talvez alguém que esteja lendo essa bacanice esteja acreditando na mesma impossibilidade que um dia eu acreditei. Pode ser que alguém esteja tomado pela tristeza e pela decepção e se sinta sem energia pra escolher qualquer coisa que seja. Também pode ser que alguém esteja vivendo um momento de contestar as escolhas equivocadas já feitas…Pode ser tanta coisa!
Mas pra você e pra mim, afirmo que não podemos perder, nem de vista nem de sonho, que há sim sempre a possibilidade da escolha diante de nós. E não precisa de uma coragem absurda não…um soprinho mínimo de coragem já pode ser o suficiente para nos tirar daquele lugar que jamais deveríamos ficar confortáveis: o lugar da tristeza.
E eu encerro essa bacanice inesperada com um convite que a vida me fez anos atrás e que virou um mantra que faço questão de sempre relembrar e mais, faço questão de viver: #EscolheDeNovo #EscolheAmor #Escolhe Milagre…e hoje, adiciono mais uma fala tão necessária e libertadora: #ESCOLHAAALEGRIA!
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]]>The post Nossa velha infância appeared first on .:Bacanices.:.
]]>Tenho ido pouco pra minha casa em Poços, parece que a cidade ficou mais longe, parece que eu ando mais cansada e parece que a gasolina virou ouro de tão cara. Um trio de peso que tem rareado minhas idas e aumentado em muito o tempo que fico sozinha por aqui em Guaxupé. Ainda tem a pandemia que na minha bolha nunca deixou de existir e meu extremo zelo pra não contaminar quem me importa…Tem também a vida, os compromissos da vida…Mas existe, no meio de tudo isso, um espaço sagrado que todas nós zelamos, um espaço do encontro, um espaço de bem querer, um espaço que é abrigo pra tudo o que fomos, somos e seremos.
Na minha última ida pra Poços o universo conspirou e até a mais cheia de compromisso de todas nós confirmou presença logo de cara o que é claro foi motivo pra muitas piadas internas, tirações de sarro e risadas. O fato é que fomos todas almoçar na casa da Denise. Além de uma vida inteira de amizade, a batata frita nos une então, é claro que tinha que ter batata frita e do melhor tipo, a “do nosso tempo”, chips, cortada manualmente e com aquele sabor de saudade sem igual. Na nossa época não existia esses pacotões de batatas fritas congeladas…e ainda bem, porque as chips são as melhores da vida.
Nossos encontros são sempre regados a risadas, por tudo e por nada, tem sempre a Helaine buscando na memória alguém de antigamente que ela reencontrou recentemente, tem sempre as lembranças e agora tem sempre um papo de remédios, doenças, dores aqui e dores ali… Estamos envelhecendo e disso não podemos fugir, mas ainda conseguimos nos divertir com as novas descobertas da idade. A noção de finitude também começa a frequentar nossas conversas com mais seriedade, mas ainda assim, entremeadas com boas histórias e mais risadas. Meninice e velhice, lado a lado em perfeita harmonia. Meninice e velhice…
Em meio a conversas sérias, risadas, danette de doce de leite e uma vida inteira de amizade o marido da Dê nos proporcionou um túnel do tempo engraçadíssimo e num piscar de olhos tinha trilha das antigas, passinhos, versões erradas das músicas em inglês que até hoje cantamos errado, risadas pelo visual trash dos nossos ídolos da época, suspiros pelo Paulo Ricardo e seu olhar 43 …tinha no presente o nosso passado em forma do bom e velho “nosso tempo”.
Nosso tempo…olhando daqui ele parece de fato bom e velho. Olhando daqui também parecemos de fato boas e já um pouco velhas…Mas olhando bem mesmo somos exatamente as mesmas meninas que se conheceram nos tempos da escola e tiveram a grande sorte de não se perderem por aí e de seguirem compartilhando as meninices e as velhices dos nossos dias…passado e presente da nossa velha infância!
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]]>The post Meu pote de ouro no final do arco-íris appeared first on .:Bacanices.:.
]]>Eu não gosto de finais e também não gosto de começos. Fico desconfortável em ambas situações e por isso, passado o Natal, eu sempre gostaria de dormir e acordar lá pro meio de janeiro, quiçá no final de fevereiro depois de passado o Carnaval e quando a vida pode, finalmente, continuar.
Meus começos de ano não são bons, mas esse está sendo especialmente desafiador e toda vez que a vida aperta, a saudade também. Fui muito mal acostumada e vivi toda a minha vida tendo quem tornasse a vida mais fácil, mesmo quando tudo estava difícil…como está agora.
No meio de um cenário com um monte de coisa fora do lugar, eu vir pra Guaxupé não foi exatamente o melhor no momento, mas foi o necessário. Então vim deixando boa parte do coração lá, vim deixando coisas sem poder consertar, vim querendo ficar. Mas não é de hoje que a vida insiste em me dizer que querer nem sempre é poder.
Nesse momento, não posso nada. E no meu coração tem lá marcado que quem poderia tudo não está mais por aqui e isso deixa tudo mais triste…Me deixa mais triste porque a gente acredita na finitude de tudo e se esquece que, como escreveu lindamente o Carpinejar, amor é o que fica depois de tudo…infinitamente.
Vim carregada de pesos e malas. Nunca aprendo que não vou precisar de nem metade das coisas que levo pra casa.
Fiz 4 viagens da garagem até meu apartamento e juro que levei várias horas até colocar tudo no lugar. Fiz a arrumação sem conseguir arrumar o coração. Ao final, senti uma das malas pesadas de um lado e fui ver o que era já que eu tinha tirado absolutamente tudo de dentro dela. Ao abrir um bolso lateral achei um saquinho lotado de moedas antigas, algumas notas de dólar e de cruzeiro. Impossível não sorrir e impossível não sentir o coração apertar.
Vó Ana tinha por hábito esconder dinheiro na minha mala. Ela guardava todas as moedas e trocos da semana, colocava num saquinho e escondia pra não ter que aturar meu mimimi de que não precisava. Na nossa outra agência, tínhamos o costume de tomar café da manhã juntos e eu que comprava o pão, então ela deixava o dinheiro pra isso e para o que eu precisasse.
Quando ela começou a esquecer as coisas ela não esqueceu seu compromisso de cuidar de mim e pediu pra minha mãe nunca esquecer do dinheiro da “Lita” (que é essa que vos escreve).
Ela tinha muita moeda e nota antiga guardada e é provável que em um dos finais de semana que fui pra Poços e ela com a doença já avançada, ela tenha se lembrado desse gesto e o fez sem se dar conta que era um dinheiro sem valor. Ela também não se deu conta de que anos depois, achar esse saquinho no dia de ontem iria significar tanto, muito mais do que se cada nota e cada moeda tivessem valor monetário. Foi o jeito dela dizer que sabia que estava complicado e que estava cuidando da gente, mesmo de longe. E foi o jeito de aquietar um pouco meu coração tão sobressaltado e preocupado.
Depois de tanta chuva e tanta tristeza, Vó Ana veio, mais uma vez, como fez por todos os dias da minha vida, como um pote de ouro no fim do arco-íris, aquele mesmo que vem depois da chuva sinalizando dias melhores e solares e floridos, como a Vó Ana sempre providenciou.
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]]>The post Nossos cansaços… appeared first on .:Bacanices.:.
]]>Ando cansada e não é aquele cansaço que passa com uma bela noite bem dormida.
Ando cansada e não é aquele cansaço que em um final de semana se recupera.
Ando cansada dos adiamentos de tantos quereres, ando cansada das impossibilidades, ando cansada do pouco, ando cansada do de sempre, ando cansada…
Ando cansada dessa vida adulta que não dá trégua.
Ando cansada de não poder pegar o carro e ir pra casa.
Ando cansada de fazer más escolhas de penitência (kkkk).
Ando cansada de não poder voltar a correr.
Ando cansada da pandemia que só existe ainda na minha bolha.
Ando cansada de não ver o mar e não sentir o vento.
Ando cansada do céu enfumaçado que embaça meus horizontes e nem dá pra vislumbrar dias melhores.
Hoje acordei cedo e me dediquei às minhas práticas diárias e me peguei cansada de ter que ter práticas diárias pra me manter medianamente saudável, razoavelmente lúcida e minimamente esperançosa.
Ando cansada de ser madura, de relevar, de perdoar quem jamais pediu perdão e nem sequer desculpas.
Ando cansada de sentir demais.
O corpo cansado é um mau abrigo.
Uma mente cansada é má conselheira.
Um coração cansado é só um músculo involuntário que pulsa só por pulsar…
Ando cansada…e só!
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]]>The post O nosso lado B. appeared first on .:Bacanices.:.
]]>Adoro uma frase que diz algo mais ou menos assim: “Amigo é aquele que sabe tudo a seu respeito e, mesmo assim, ainda gosta de você.”
Saber tudo a respeito de uma pessoa (ou quase tudo) demanda tempo, convivência, intimidade e uma ligação rara.
Dia desses li uma postagem que descrevia lindamente o lado A de uma pessoa que eu conheço bem. Achei graça, porque aquela pessoa descrita, estava longe de ser a pessoa de verdade. Igual quando a pessoa morre, vira santo! Não, não somos santos e isso é bom.
Ser de verdade não é tarefa fácil e permitir que conheçam nosso lado B é tarefa ainda mais difícil. É muito mais cômodo convivermos com pessoas que só conhecem nosso lado mais bacana, mais afável, mais gentil, mais correto, mais um monte de adjetivos e menos o principal, o de verdade…quem somos de fato que obviamente inclui nossas sombras.
Todos temos nosso lado A e nosso lado B. Mas é um desafio de imensa valentia se deixar conhecer no que temos de menos bonito. Em uma fase bem horrorosa da minha vida, em algum lugar de mim eu sentia vergonha de quem eu tinha me tornado e o reflexo disso foi que me afastei das pessoas que mais me conheciam. Por exemplo, nunca podia comparecer aos nossos tradicionais encontros nos quais falamos de absolutamente tudo, do papo mais cabeça ao mais sem pé e nem cabeça, e que temos como tradição sempre fechar os lugares que vamos de tanto assunto que temos juntas.
Comecei a fazer terapia e lá um dia recebi um “dever de casa”: ligar pra essas duas amigas que me conheciam tão bem e me encontrar com elas e dizer inclusive o motivo de eu estar envergonhada de encontrá-las. Dizer que estava envergonhada delas, me conhecendo tão bem, me olharem e me verem tão devastada, tão fragilizada e tão distante da amiga forte e durona que conheciam. Vulnerável como nunca antes e também humana como nunca antes. O que posso dizer é que foi um dos melhores encontros da vida, com elas, mas especialmente comigo.
Lendo aquela postagem eu me lembrei dessa sensação de vergonha e compreendi que é muito mais fácil ter ao nosso lado pessoas que passam longe do nosso lado B. Que não imaginam do que somos capazes, do quão egoístas podemos ser, de quanta dor podemos provocar, de como podemos fazer escolhas equivocadas e do quão humano isso tudo é. Pode ser mais fácil, mas também é tão menos verdadeiro.
Abrir meus porões naquele dia foi uma das coisas mais difíceis que já fiz, mas ter quem escolhesse continuar sentado do meu lado nesse porão, quem escolhesse me fazer companhia nesse momento de vergonha foi a melhor sensação da vida. E foram essas pessoas que fizeram questão de então me lembrar do meu lado A que eu até havia esquecido que existia.
No final das contas, ninguém consegue ser de verdade sendo só lado A ou só lado B. Somos essa confusão de luz e sombra e mais cedo ou mais tarde isso vai ficar claro e pobre de quem só conseguiu ver e conhecer a ilusão do lado A.
E finalizo com uma outra frase que adoro e que vez ou outra revisito quando me perco de mim no caminho: “O melhor espelho é um velho amigo!”. Que tenhamos aqueles espelhos capazes de refletirem nosso lado A, mas que conhecem bem o nosso lado B também e ainda assim seguem gostando de nós.
Obs: Só hoje quando fui buscar a imagem pra essa bacanice que me dei conta de que muita gente não faz ideia dessa coisa do lado B. Para quem não teve o prazer de ouvir suas músicas prediletas nos discos vinis, o lado A sempre trazia a versão mais comercial, as músicas feitas para serem hits, tocarem nas rádios e todo mundo cantar junto. O lado B escondia algumas preciosidades que não tinham esse apelo comercial, mas conquistavam os fãs de verdade do artista ou banda. Exatamente como acontece com o nosso lado B. De verdade!
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]]>The post “É preciso sair das cinzas que existem dentro de nós.” appeared first on .:Bacanices.:.
]]>“É preciso sair das cinzas que existem dentro de nós.”
Ontem ouvi essa frase numa matéria sobre a recuperação do Museu Nacional que recentemente foi devastado pelo fogo e restaram muitas cinzas. Não me atentei para quem estava falando uma das frases mais sábias e profundas que ouvi nos últimos tempos e que me tocou tanto.
Fiquei pensando o quanto de cinzas trazemos acumuladas em nós e como é fácil nos perdermos nelas.
Distraídos que somos, é possível que nem percebamos quando a vida sopra erguendo essas cinzas de lugares que nem lembrávamos existir e quando nos damos conta, nosso olhar está turvo e já não conseguimos ver com nitidez cores, flores, amores e os encantos da vida. Só vemos essas minúsculas partículas de dores passadas, mágoas, más lembranças…um relicário das nossas tragédias particulares sendo revisitadas em pequenas partículas de tristeza, momentos que nos marcaram tão negativamente que mesmo passado tanto tempo ainda nos vemos presos a eles.
Eu tenho certeza que muita coisa que dizemos que são águas passadas são apenas cinzas que varremos pra debaixo do nosso tapete emocional e, mais cedo ou mais tarde, teremos que lidar com isso…seja pra empurrar novamente, ou seja pra limpar.
Talvez não seja possível limpar completamente algumas cinzas que já são parte de nós, mas sempre é possível arrumar um lugar melhor para armazenar de um jeito que evite que a vida sopre tantas vezes causando tanto transtorno.
Essa frase parece ser uma antítese de todo super heroísmo que está em moda que jura somos capazes de tudo, de superar tudo, apagar tudo, perdoar tudo…Não acredito que sejamos tão super assim. Mas acredito que somos capazes de lidar melhor com esse amontoado de cinzas e acredito mais ainda que passado o vendaval, as cinzas vão se acomodando e num momento de descuido desse nosso apego a essas dores, seremos capazes de escapar das cinzas que existem em nós.
E nesse momento, a vida volta a ganhar cor, flor, amor e encanto. Porque a vida tem lá suas cinzas, mas tem muito mais cor, flor, amor e encanto. Que rendamos nossos olhos a eles, na maior parte do tempo, até que um novo sopro de vida bagunce tudo e levante as cinzas promovendo uma nova imersão em nosso submundo que sempre vai existir, mas ao qual jamais devemos sucumbir.
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